
Natascha Kampusch, seqüestrada 2 de março de 1998, neste dia havia brigado com sua mãe. Ela caminhava até a escola quando fora agarrada e empurrada para dentro de uma caminhonete branca por Wolfgang Priklopil, jovem, educado, tímido e com enormes problemas com o mundo de fora. E, claro, com o de dentro.
Ela fugiu do seqüestrador em 23 de agosto de 2006.
8 anos seqüestrada...
Natascha viveu dos 10 aos 18 anos confinada no porão da casa de Priklopil.
Tinha os cabelos raspados, andava sempre seminua, apanhava violentamente todos os dias, tinha o corpo coberto por hematomas, cortes e lesões, comia pouco, e quando comia...
Desde os seus 10 anos convivendo como escrava de um psicopata! Que após sua fuga, se suicidou.
Como entender essas mentes?
A de Wolfgang Priklopil, nem tento entender, afinal, podemos interpretar mentes como a dele, mas nunca teríamos um fundamento pra isso. Esses problemas têm raízes q se conectam e ficam... Posso dizer que, absurdas? Que seja...
Se você como eu imagina como teria ficado a mente de Natascha, você se imaginou no lugar dela.
De verdade, 10 anos... Criança... Você não tem noção deste mundo perigoso que é. E de repente alguém te rapta. E você fica sob posse deste alguém por oito anos, sem fazer nada. Sendo obrigada a fazer coisas perversas, torturada... Eu me renderia a tudo isso já que não teria escolha, e cresceria com o ódio de terem tirado minha infância, vivendo longe da minha família, amadurecendo só por conta desta ira, pois experiências de juventude não teria tido, talvez viraria tão psicopata quanto o seqüestrador. E chegaria a planejar dolorosas vinganças ao longo das torturas dele até que uma fosse a mais perfeita que eu pudesse usar sem falhar.
E você? Antes de ler o próximo parágrafo, tente imaginar no lugar dela, responder essa pergunta.
Natascha recusou-se a ocupar o lugar reservado a ela no espetáculo – o de vítima eterna.
Sim, ela dizia, ‘eu fui uma vítima, mas isso não é tudo o que eu sou’. Sim, ‘Wolfgang Priklopil é um seqüestrador e um criminoso, mas não é um monstro’. “A simpatia oferecida à vítima é enganadora”, escreveria ela mais tarde. “As pessoas amam a vítima apenas quando se sentem superiores a ela”.
Neste caso, Natascha era superior. E tudo isso resultou no livro em que ela relata sua história: 3096 dias - Natascha Kampusch.
E vemos que aquela criança, amadureceu bem, com superioridade, e analisou sua própria história como ninguém.
Natascha Kampusch começa sua narrativa escapando do mito da infância feliz. Ela não era uma alegre e saltitante Chapeuzinho Vermelho engolida por um lobo malvado quando estava a caminho da casa da avó para mais um dia perfeito. Era uma menina que tinha dúvidas sobre o amor dos pais (como a maioria de nós, aliás), que fazia xixi na cama apesar de já ter 10 anos e sentia-se desconfortável com o próprio corpo gorducho. No dia do seqüestro ela tinha conquistado a liberdade de ir sozinha à escola pela primeira vez, um trajeto de cinco minutos. Estava apavorada com a nova aventura, o que pode ter sido pressentido por Priklopil, um homem que conhecia muito bem o sentimento do medo em sua própria pele e se sentia totalmente deslocado no mundo exterior
“Hoje acredito que, ao cometer um crime terrível, Wolfgang Priklopil queria apenas criar seu próprio mundinho perfeito, com uma pessoa que estivesse ali só para ele. Provavelmente ele nunca teria podido fazer isso do jeito normal e decidira, assim, forçar e modelar alguém para isso. Em essência, ele não queria nada mais do que as outras pessoas: amor, aprovação, calor. Queria alguém para quem ele fosse a pessoa mais importante do mundo. Ele parecia não ter visto outro modo de conseguir isso senão sequestrando uma menina tímida de 10 anos e a afastando do mundo exterior, até que ela estivesse tão psicologicamente alheia que ele pudesse ‘recriá-la’. (...)
Ele precisava daquele crime insano para concretizar sua visão de um mundo perfeito e intacto. Mas, no fim, realmente queria apenas duas coisas de mim: aprovação e afeto. Como se o objetivo por trás de toda aquela crueldade fosse forçar uma pessoa a amá-lo incondicionalmente.”
As torturas se intensificaram justamente quando Priklopil percebeu que, apesar de tirar-lhe o espelho para que não tivesse nenhuma imagem de si, batizá-la com um novo nome e proibi-la de pronunciar o antigo, ele não conseguia dobrar Natascha. E a vida idílica que esperava ter com sua mulherzinha/escrava dentro de casa, longe dos olhos do mundo, era impossível. Era impossível especialmente para ele, que se tornava cada vez mais temeroso do mundo lá fora. E mais desesperado com o de dentro, onde a menina crescia e se tornava mulher, algo com que ele nunca tinha lidado muito bem.
“Se eu tivesse apenas o odiado, esse ódio teria me consumido e me tirado a força de que eu precisava para sobreviver. Como naquele momento pude captar um lampejo do ser humano pequeno, desorientado e fraco por trás da máscara do sequestrador, pude me aproximar dele. Então, olhei em seus olhos e disse:
– Eu perdoo você, porque todo mundo erra às vezes.
Foi um passo que pode parecer estranho e doentio para muitas pessoas. Afinal de contas, o ‘erro’ dele custara minha liberdade. Mas era a única coisa a fazer. Eu tinha de conseguir conviver com aquele homem, caso contrário não sobreviveria.”
Em vários momentos do livro, Natascha mostra como o perdão tornou-se um instrumento poderoso nessa relação delicadíssima, em que o sequestrador tinha literalmente a vida dela nas mãos. Perdoar a tornava potente – e não apenas passiva. Alterava o equilíbrio de forças entre os dois. Ela passou oito anos e meio recusando-se a chamá-lo de “mestre” e a ajoelhar-se diante dele, mesmo que fosse espancada por isso.
Quando Natascha se recusou a representar o papel de vítima passiva do “monstro sexual”, foi odiada e ridicularizada. Os mais bonzinhos, com seus diplomas na parede e sua condescendência profissional, trataram de carimbar o diagnóstico definitivo na sua testa. A patologia de sempre: “Síndrome de Estocolmo”. Mas deixemos que Natascha fale, porque ela se defende com muita propriedade também dos bem intencionados.
“As coisas não são totalmente pretas ou brancas. E ninguém é totalmente bom ou mau. Isso também vale para o sequestrador. Essas são palavras que as pessoas não gostam de ouvir de uma vítima de sequestro. Porque os conceitos de bem e mau já estão claramente definidos, conceitos que as pessoas querem aceitar para não perder o rumo em um mundo cheio de tons de cinza.
Nossa sociedade precisa de criminosos como Wolfgang Priklopil para dar um rosto ao mal e afastá-lo dela mesma. É preciso ver imagens desses porões para que não se vejam os muitos lares em que a violência ergue sua face burguesa e conformista. A sociedade usa as vítimas desses casos sensacionalistas, como o meu, para se despir da responsabilidade pelas muitas vítimas sem nome dos crimes praticados diariamente, vítimas que não recebem ajuda – mesmo quando pedem.
Crimes assim, como o que foi cometido contra mim, formam a estrutura austera, em branco e preto, das categorias de Bom e Mau nas quais a sociedade se baseia. O criminoso deve ser um monstro, para que possamos nos ver no lado dos bons. O crime deve ser acrescido de fantasias sadomasoquistas e orgias selvagens, até que seja tão extremo que não tenha mais nada a ver com nossa própria vida.
E a vítima deve ficar destruída e permanecer assim, para que a externalização do mal seja possível. A vítima que se recusa a assumir esse papel contradiz a visão simplista da sociedade. Ninguém quer ver isso, porque, caso contrário, as pessoas teriam de olhar para dentro de si mesmas”.
A história que Natascha Kampusch escolheu contar foge de todas as simplificações. E por isso ela pagou – e vem pagando – um preço alto. Me pergunto de onde essa garota presa e torturada por um homem solitário e instável durante mais de oito anos conseguiu forças e lucidez para continuar brigando pela integridade do que é. Não mais agora contra Wolfgang Priklopil, mas contra todos nós que queremos reduzi-la às necessidades de nosso voraz apetite por vítimas. Ao nosso desespero por uma normalidade que só existe em nossas fantasias, à categorização simplista do bem e do mal – onde todos estamos, claro, sempre no lado do bem.
Mano, a história dela é incrível, e faço minhas as citações que peguei de Eliane Brum, juntamente com minhas palavras. E resumido, porque fora toda essa incrível história ainda há varias coisas que não mencionei; mencionei apenas estes fatos, pois acho que foram muito dignos e únicos. Poucos, ou talvez ninguém fosse capaz de agir como ela agiu. Pensar como ela pensou.
Baseado e com grandes trechos retirados de:
http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=3488:a-vitima-indigesta&catid=99:opiniao-e-analise&Itemid=483
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